quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Governantes trolls - D. Pedro I (de Portugal)

Acho que já sei de onde veio esse "mago do foda-se"...
Você provavelmente já ouviu ou até mesmo usou a expressão "agora Inês é morta", mas pode ser que você não saiba que ela foi criada por causa de uma trollada vingativa (e muito bem-feita) realizada por Pedro I, rei de Portugal.


Antes de mais nada, entenda: este é o D. Pedro I lá de Portugal, e não tem nada a ver com o nosso D. Pedro I aqui do Brasil. O rei da nossa história de hoje reinou entre 1357 e 1367, ou seja, quase 500 anos antes do nosso D. Pedro I. 

Aliás, o nosso D. Pedro I ganhou este título porque ele era o primeiro aqui do Brasil, mas, quando ele se mandou para Portugal, ele mudou de nome. Lá, o nosso D. Pedro I reinou como D. Pedro IV de Portugal. Então, não confunda.

Este D. Pedro I, de Portugal, era filho do rei Afonso IV, e você sabe como era a vida de príncipes e princesas naqueles tempos: os pais faziam acordos com outros reis para casarem seus filhos e fazerem alianças. Então, por mais que o Pedrinho se enrabixasse por qualquer garotinha da corte, ele já sabia que não poderia ficar com ela, porque seu pai, o rei, certamente o obrigaria a casar com alguma princesa de algum outro reino, por mais feia que fosse.

E assim se fez: arrumaram para o jovem príncipe uma esposa espanhola. Mais precisamente, Constança Manuel, rainha de Leão e Castela. Na qualidade de futura rainha, ela tinha direito a ter damas nobres, componentes da corte real, para acompanhá-la e servi-la nas tarefas do dia-a-dia. E, para seu azar, aconteceu de seu marido, o rei, se apaixonar por uma delas: Inês de Castro.

Inês de Castro, a paixão do príncipe e futuro rei
Todo mundo sabe como é um casal de jovens enamorados, e é claro que todo mundo percebeu. Até o rei, pai do então príncipe. E deu merda. Toda a corte já fazia fofoca do romance do príncipe com a aia da princesa. O rumor cresceu, e o povo também começou a falar nas ruas.

O rei, vendo essa situação, resolveu tomar uma providência radical, e exilou a amada do filho no Castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana. Reza a lenda que nem isso teria apagado o meteoro fogo da paixão dos dois, que ainda trocariam cartas secretamente.

No meio disso tudo, uma reviravolta surpreendente acontece: a princesa D. Constança, mulher do príncipe Pedro, morre ao dar à luz Fernando, seu primogênito. Era a chance que o príncipe esperava e ele, agora viúvo, manda D. Inês regressar do exílio e passa a viver com ela. Obviamente contra a vontade de seu pai, o rei, que tinha outros planos.

Na cabeça do rei, esta era a chance de casar seu filho com outra princesa e, além de fazer mais uma aliança, ainda embolsar mais uma grana preta a título de dote (pra você ter uma ideia, a Wikipedia diz que o dote da falecida D. Constança foi de 300 mil dobrões de ouro!). Trocando em miúdos, enquanto o príncipe D. Pedro pensava na mulher que amava, seu pai (FDP) pensava mais ou menos assim:


Então o rei D. Afonso botou seus asseclas para caçar novas pretendentes para D. Pedrito Pedro, mas o príncipe, malandro, se fez de rogado, dizendo que não, porque ainda se sentia muito triste pela perda de sua mulher, e não conseguia pensar num novo casamento.

Tão triste que tratou logo de meter uns filhos em sua amante Inês de Castro, enquanto enrolava o rei. Mais precisamente 4 filhos. E, assim, a situação perdurou por aproximadamente 10 anos. Só que o nascimento dos filhos de D. Inês deu ensejo à inveja e à fofoca por parte da família da falecida D. constança.

Foram dizer ao rei que a família de Inês de Castro, que já tinha 3 filhos bastardos (um morreu logo nos primeiros dias de vida) do futuro rei, estava planejando matar o príncipe herdeiro Fernando, filho da falecida princesa. 

Em meio a tudo isso, a pressão aumentou por causa de uma fofoca generalizada de que o príncipe teria se casado secretamente com D. Inês. Sentindo a pressão, o rei decidiu dar um basta àquela situação. Em 7 de janeiro de 1355, o próprio rei, aproveitando que seu filho estaria numa excursão de caça, seguiu para sua casa, com alguns homens de confiança, onde mataram D. Inês de Castro.

Dois anos depois, com a morte do sacana do seu pai, D. Pedro I é coroado rei de Portugal. Ali começaria sua vingança. Em 1360, fez declaração pública de que teria se casado secretamente com D. Inês e legitimou os filhos dela como futuros sucessores no trono.

A partir daí, passou a perseguir os assassinos de sua amada, sendo que dois deles, que tinham fugido para o reino de Castela, foram presos e executados. Diz a lenda que o rei mandou arrancar o coração de um pelo peito e outro pelas costas, e que assistiu às execuções enquanto se banqueteava. Um terceiro escapou para a França.

Mas isso ainda foi pouco. Para vingar-se dos demais membros da corte, que tanto se meteram em sua vida com sua amada Inês, D. Pedro teria mandado tirar o corpo de D. Inês do túmulo, sentá-lo no trono e ordenado uma cerimônia de coroação, com direito a cerimônia de beija-mão, obrigando todos os nobres a beijar a mão do cadáver sob pena de morte.

Cerimônia de coroação póstuma de Inês de Castro

E daí veio o adágio: agora, Inês é morta (ou seja, agora é tarde, já era).

Mas o que eu acho uma tremenda sacanagem é que o rei, que foi sacaneado de maneira tão trágica, ao ter aprontado uma vingança troll épica, tenha passado à História com o nome de "D. Pedro, o Justiceiro" (ou "o cruel"). Crueldade foi o que fizeram com ele, né não?

E se você pensa que a história termina aí, se enganou: o rei mandou construir dois túmulos de pedra para ele e sua amada, dando ordens para que eles fossem sepultados um de frente para o outro, para que no dia da ressurreição dos mortos os dois, cada um deles seja a primeira visão do outro.

MRJ