segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Governantes trolls - Henrique VIII, da Inglaterra - Parte 2

Parece uma bichona, mas era comedor!

Conforme vimos no primeiro post sobre Henrique VIII, o rei da Inglaterra havia se casado com a viúva de seu irmão e, agora, apaixonado por Ana Bolena, filha de um nobre de seu reino, planejava se divorciar da rainha para se casar com ela.

Vimos, também, que o rei havia pedido permissão ao Vaticano para se casar com Catarina de Aragão, que, embora fosse viúva de seu falecido irmão, supostamente ainda era virgem, porque o irmão do rei estava tão doente que nem teria tido qualquer condição de tentar emplacar um herdeiro. Se ela houvesse sido desvirginada pelo falecido príncipe Arthur, o Vaticano não permitiria o casamento de forma alguma, só se rolasse muito ouro.

Fiquemos com essa versão, ok? Se valeu para o Henrique, que aceitou se casar com ela, e valeu também para o Papa da época, quem somos nós para desconfiar? Sei não, hein?

Seja como for, Henrique casou, foi lá, conferiu e engravidou a rainha, na busca por um herdeiro homem para o trono. Catarina deu à luz por 6 vezes, sendo 3 meninas e 3 meninos, mas, para infelicidade do rei, somente uma de suas crias vingou, e era uma menina, chamada Mary. O rei ficara sem um herdeiro que julgasse à altura para seu trono.

Isso também pesou na vontade dele de "se livrar" da rainha. Isso e o fato de ela ser 6 anos mais velha que ele, com certeza. Afinal, se ele tivesse uma mulher mais jovem, ainda haveria mais tempo para tentar fazer com que nascessem outros herdeiros. E..., bem, Ana Bolena era 16 anos mais nova que a rainha.

Ana Bolena: novinha no grau.

Aí o rei se empolgou e incorporou Raul Seixas, no melhor estilo Metamorfose Ambulante, como nos versos do Raulzito aí abaixo:

"Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou"

E mandou recado ao Papa, dizendo agora o oposto do que dissera antes, ou seja: "Santidade, lembra quando eu pedi pra casar com a viúva do meu irmão? Pois é, eu estava errado. Na verdade, encontrei um versículo na Bíblia que foi quebrado com esse casamento, veja só:
E quando um homem tomar a mulher de seu irmão, imundícia é; a nudez de seu irmão descobriu; sem filhos ficarão.(Levítico 20:21)".
Nelson Rodrigues, aquele que dizia que todo homem tem fissura pela cunhada, discorda, mas, enfim: essa foi a "brecha na lei" que os advogados do rei encontraram para tentar engrupir o Papa. "Como assim advogados?", você pergunta, e eu te respondo: que espécie de escória humana você ACHA que ia bolar uma sacanagem dessas, sem medo de ir para o inferno no processo?

Assim, o discurso agora era de que o Papa, na verdade, deu uma dispensa que ele jamais poderia dar, porque não tinha autoridade para passar por cima das escrituras e, por isso, o casamento deveria ser anulado.

Henrique colocou o Papa (aquele ser infalível, sabe?), diante dos governantes de todo o mundo, na posição de ter falhado - e falhado feio! Jogou água do Rio Tietê no ventilador do Vaticano!

Resumindo a história, o Papa Clemente VII, que não era bobo nem nada, viu que estava sendo empurrado contra a parede e colocado numa situação absolutamente desconfortável e negou o pedido, a despeito de ter sido o Papa anterior (Julio II), e não ele mesmo, a permitir o casamento de Henrique e Catarina.

Negou, e você também negaria. Primeiramente, para evitar treta com o Imperador da Espanha (que era um dos homens mais poderosos do mundo e...sobrinho da rainha, esposa de Henrique!) e, em segundo lugar, porque o próprio versículo invocado por Henrique dava margem para "espiritualizar" a coisa: ao contrário do que está escrito no versículo, houve descendência, já que a filha deles, Mary, vivia.

Henrique ainda tentou por diversas vezes e formas, mas o Papa estava irredutível. Vendo que o Vaticano jamais lhe seria favorável nesta questão, Henrique acabou olhando em outra direção: estava em curso, já há alguns anos, um movimento de reforma da Igreja Católica, iniciado por Lutero na Alemanha. Ali, Henrique, que a princípio era um devoto rei católico, começou a vislumbrar uma forma de solucionar seu próprio caso.

Veremos nos próximos posts como a coisa se desenrolou.

MRJ

EDIT: se alguém tiver tempo, paciência e interesse em ler mais detalhes sobre esta parte da história, clique aqui.
ERRATA: eu havia escrito que o Imperador da Espanha era tio da rainha Catarina. Na verdade, ele era sobrinho dela.